Entre tampinhas, botões e figurinhas: quando colecionar também era jogar — e viver uma Copa por dia
Por Edson Junior | Coluna “Em dia com o nosso tempo”
Se existiu uma paixão que ganhou status de obsessão, ela atende pelo nome de futebol de botão.
Já morando no centro da cidade, comecei a montar meus primeiros times e seleções. E aqui havia regra — e disciplina. Nada vinha fácil. Era preciso garimpar tampinhas de Guaraná Antártica para conseguir montar um elenco.
A conta era simples e quase matemática: três tampinhas valiam um jogador de linha; cinco tampinhas garantiam o goleiro.
E assim, peça por peça, time por time, eu construía verdadeiras seleções. Cada botão tinha valor. Cada partida era levada a sério. E cada conquista… comemorada como se fosse final de Copa do Mundo.
Com a ajuda da minha prima Rejane, que passou uma temporada lá em casa naquele inesquecível 1982, a coleção cresceu — e junto com ela, a paixão pelo jogo.
Enquanto o botonismo dominava minhas tardes, outros álbuns surgiam com a chancela da Antárctica, Ping Pong e Editora Abril. Fui completando vários: O Mundo Maravilhoso da Aviação (que rendia até camiseta), Pica-Pau, Turma da Mônica, Fórmula 1 — com um jovem Ayrton Senna despontando — entre tantos outros.
Na casa dos meus avós, num lugarejo no interior de Minas Gerais, ganhei cerca de 50 selos do meu tio Eudes. E ali nasceu mais um capítulo: tornei-me filatelista. Uma coleção rica, diversa, construída ao longo de anos que hoje guardo com carinho na memória.
Até que a vida adulta chegou.
Trabalho, faculdade, mudanças… e, em meio a tudo isso, uma perda difícil: meu pai, sem imaginar o valor afetivo daquele acervo, acabou doando grande parte da coleção. Não eram apenas objetos. Eram fragmentos inteiros da minha história.
Mas o tempo também tem suas formas de devolver o que parecia perdido.
Hoje sigo colecionando — talvez com itens mais sofisticados: CDs e DVDs (quase 2.000 unidades), camisas de futebol (mais de 100), miniaturas, perfumes, cartões telefônicos, selos, cédulas, canetas… e por aí vai.
E já tenho um novo projeto em mente: transformar um espaço da casa em um verdadeiro “mini Louvre”, com réplicas de obras de grandes mestres. E não apenas os clássicos mais conhecidos — a ideia é ampliar esse universo, incluindo nomes como Van Gogh, Portinari, Da Vinci, Picasso, Edvard Munch, Tarsila do Amaral… e tantos outros que ajudaram a contar a história da arte ao longo dos séculos.
Enquanto isso, sigo guardando a sete chaves meus álbuns mais recentes: Copas do Mundo, Campeonatos Brasileiros, Olimpíadas… adquiridos nas cada vez mais raras bancas de jornal — verdadeiros templos da nostalgia.
A vida segue. E com ela, a emoção de cada novo item… e a saudade gostosa de tudo aquilo que ficou.
E com a Copa de 2026 logo ali no horizonte, já sei exatamente o que me espera: figurinhas repetidas, negociações intensas, aquela esperança quase teimosa de completar o álbum… e um investimento que facilmente passa da casa dos mil reais.
Mas quer saber?
Algumas coleções não cabem em prateleiras, caixas ou álbuns. Elas ficam guardadas em um lugar bem mais difícil de organizar… e infinitamente mais fácil de revisitar.
Na memória.


















