Muito além dos mitos e do medo popular, os morcegos exercem funções essenciais para o equilíbrio ambiental. Um estudo desenvolvido no Paraná mostrou que o estado ainda possui uma enorme diversidade de espécies pouco conhecidas, inclusive em regiões já consideradas amplamente pesquisadas. Em Maringá, por exemplo, já foram registradas mais de 40 espécies.
A pesquisa foi conduzida ao longo de cerca de quatro anos e reuniu informações de dezenas de trabalhos científicos realizados em diferentes regiões do estado. Durante entrevista, a pesquisadora Nadia Chute explicou que o principal objetivo era atualizar o panorama dos morcegos paranaenses e compreender melhor a distribuição das espécies.
“A gente percebeu que ainda existia uma grande lacuna sobre os morcegos no Paraná. Mesmo em locais bastante estudados, ainda encontramos espécies raras e novos registros”, afirmou.
Segundo a pesquisadora, o trabalho analisou 67 estudos científicos produzidos ao longo dos últimos anos. O levantamento permitiu identificar mudanças na distribuição das espécies e também revelou o quanto ainda há para ser descoberto no estado.
“O maior desafio foi justamente reunir e organizar todos esses dados. Cada pesquisa tinha metodologias diferentes e objetivos específicos”, explicou.
Descobertas em regiões já estudadas surpreenderam pesquisadores
Um dos pontos que mais chamou atenção dos pesquisadores foi o fato de novas ocorrências terem sido encontradas justamente em áreas consideradas referência em estudos ambientais, como o litoral paranaense e a região de Curitiba.
“Isso mostra que ainda sabemos muito pouco sobre a fauna do estado. Se já encontramos novidades em regiões muito estudadas, imagine em áreas onde ainda existem poucos levantamentos”, destacou.
Ela acredita que regiões do oeste do Paraná ainda podem revelar espécies pouco conhecidas ou até novos registros para o estado.
Alguns morcegos identificados possuem hábitos difíceis de observar, como espécies que voam em grandes altitudes ou vivem em áreas de mata mais fechada, o que dificulta o monitoramento.
Morcegos ajudam no reflorestamento e controle de insetos
Durante a entrevista, Nadia também reforçou a importância ecológica dos morcegos e explicou que a maioria das espécies não se alimenta de sangue, ao contrário do que muitas pessoas imaginam.
“As pessoas associam muito os morcegos aos hematófagos, mas existem diversas espécies que se alimentam de frutas, néctar e insetos”, explicou.
Os morcegos frugívoros ajudam diretamente no reflorestamento natural ao espalharem sementes por diferentes áreas. Já os nectarívoros atuam na polinização de flores e plantas nativas.
“Eles têm um papel fundamental na regeneração das florestas e também na manutenção da biodiversidade”, afirmou.
Outro ponto destacado pela pesquisadora é o controle natural de insetos.
“Existem espécies que consomem grandes quantidades de insetos, ajudando inclusive no controle de pragas agrícolas e até de mosquitos transmissores de doenças, como a dengue.”
Apenas uma espécie se alimenta de sangue
Nadia também comentou sobre o medo que muitas pessoas ainda têm dos morcegos. Segundo ela, o receio costuma estar ligado à desinformação e ao imaginário popular.
“Muito desse preconceito vem da cultura, dos filmes e do folclore. Por serem animais noturnos, muita gente associa os morcegos a algo ruim ou perigoso”, disse.
Ela explicou que, entre as espécies encontradas no Paraná, apenas uma se alimenta de sangue de mamíferos.
“Ataques a humanos são extremamente raros. Esses morcegos normalmente preferem animais maiores, como bovinos e ovinos.”
Maringá possui ambiente favorável para os morcegos
De acordo com a pesquisadora, Maringá se destaca pela quantidade de áreas verdes e arborização urbana, características que favorecem a presença de diversas espécies.
“Maringá possui muitos parques, árvores e corredores verdes. Isso cria ambientes adequados para várias espécies viverem, inclusive em áreas urbanas”, explicou.
Atualmente, mais de 40 espécies já foram registradas no município, número considerado expressivo para uma cidade urbana.
Além da conservação ambiental, Nadia defende que a educação ambiental seja uma das principais ferramentas para reduzir o preconceito contra os morcegos.
“Quando as pessoas conhecem a importância desses animais, elas passam a enxergá-los de outra forma.”
Orientação em caso de morcegos dentro de casa
A pesquisadora também orientou sobre como agir ao encontrar um morcego em residências ou estabelecimentos.
“O ideal é não tocar diretamente no animal. Caso seja necessário removê-lo, a recomendação é usar um pano grosso ou luvas e acionar órgãos responsáveis, como equipes de controle ambiental ou sanitário.”
Ela reforça que manipular morcegos sem proteção pode representar riscos tanto para o animal quanto para as pessoas.
Ao final da entrevista, Nadia destacou que o estudo poderá servir de referência para futuras pesquisas em outros estados brasileiros.
“Nossa intenção é manter esses dados atualizados e incentivar que outros estados também desenvolvam levantamentos semelhantes sobre suas espécies.”
