Filho mantém legado do pai e distribui versículos bíblicos pelas ruas de Maringá

Filho mantém legado do pai e distribui versículos bíblicos pelas ruas de Maringá

Um gesto simples, mas carregado de fé, memória e propósito, continua presente nas ruas de Maringá. Há pouco mais de um ano, o maringaense Claudinei Boscolo, de 56 anos, decidiu dar continuidade ao legado do pai, Divanir José Boscolo, conhecido na cidade como o “Discípulo Anônimo”, que durante décadas distribuiu versículos bíblicos a muitas pessoas, tornando-se uma figura querida e reconhecida pela população.

A história que deu origem a esse trabalho começou após um episódio marcante na vida de Divanir. Ele sofreu um grave acidente enquanto trabalhava, caiu de cabeça, teve traumatismo craniano e permaneceu em coma por cerca de 30 dias em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Ao se recuperar, fez uma promessa que mudaria completamente seu caminho: dedicar sua vida a evangelizar.

A partir de então, passou a confeccionar pequenos papéis com mensagens bíblicas e distribuí-los diariamente pelas ruas, principalmente na região central e no terminal urbano. Durante mais de 30 anos, a rotina foi mantida com disciplina. Estima-se que ele tenha entregue cerca de 500 versículos por dia — um número que, ao longo das décadas, alcança milhões de mensagens espalhadas pela cidade.

Recomeço e transformação

Após a morte do pai, em 2022, Claudinei enfrentou um período de dificuldades pessoais. Ele conta que se afastou do propósito que conhecia desde a infância.

“Depois que meu pai faleceu, eu não estava bem. Eu dei uma desviada dos planos de Deus, comecei a usar droga, tive frustração no relacionamento e abandonei a semeadura”, relata.

A mudança veio após a decisão de buscar ajuda. Claudinei passou oito meses em uma clínica de reabilitação, período que considera essencial para sua recuperação.

“Era pra ficar seis meses, mas eu fiquei oito. Hoje faz mais de um ano que estou sóbrio, graças a Deus. Foi ali que eu comecei a refletir e entender que precisava voltar para aquilo que meu pai sempre fez”, afirma.

Desde então, ele retomou o trabalho de evangelização nas ruas — não apenas como uma homenagem, mas como uma missão pessoal.

“Voltei a semear a palavra. Isso está me ajudando muito. É o legado do meu pai, mas hoje eu também me identifico com isso. As pessoas precisam dessa palavra”, diz.

Rotina de fé nas ruas

A rotina de Claudinei começa cedo. Em muitos dias, antes mesmo das 6h da manhã, ele já está nas ruas com os versículos prontos para distribuição.

O processo de produção é simples, mas feito com dedicação. Ele compra o papel, conta com a ajuda da cunhada para imprimir as mensagens e faz o recorte manualmente em casa.

“Meu pai colava, fazia tudo bem artesanal. Eu sou mais prático, recorto e já levo. Mas antes de sair eu faço uma oração, agradecendo ao Senhor por cada mensagem que vai ser entregue”, explica.

Atualmente, ele distribui cerca de 300 versículos por dia. Embora seja um número menor do que o do pai, ele afirma que o impacto continua sendo significativo.

“Às vezes a gente não tem noção do que a pessoa está passando. Um versículo pode chegar exatamente na hora certa”, diz.

Entre a aceitação e a rejeição

Apesar do trabalho ser bem recebido por muitos, Claudinei também enfrenta situações de rejeição. Segundo ele, isso faz parte do processo.

“Tem gente que não quer pegar, acha que eu vou cobrar dinheiro. Já teve pessoa que falou que era ‘lixo’. No começo eu fiquei chateado, até respondi de forma errada uma vez”, conta.

Com o tempo, ele aprendeu a lidar melhor com essas situações.

“Hoje eu entendo que é escolha de cada um. Quem não quer, amém. Eu sigo fazendo minha parte”, afirma.

Por outro lado, o reconhecimento de quem valoriza o trabalho é o que mais o motiva a continuar.

“Muita gente lembra do meu pai. Tem pessoas que choram, mostram versículos antigos que guardam. Isso me emociona e dá força pra continuar”, relata.

Reconhecimento e homenagem

O impacto do trabalho de Divanir ultrapassou as ruas e chegou também ao reconhecimento público. No dia 30 de abril, a Câmara de Maringá aprovou, em segunda discussão e por 17 votos, o projeto de lei nº 17.702/2026, de autoria do vereador Júnior Bravin, que denomina uma Unidade Básica de Saúde (UBS), na Zona 22, com o nome de Divanir José Boscolo.

A homenagem foi possível também com apoio de familiares envolvidos na articulação política local.

“Foi uma alegria muito grande. Meu pai deixou um legado não só pra mim, mas pra cidade inteira. Ver o nome dele sendo lembrado assim é emocionante”, afirma Claudinei.

Um legado que continua

Além da missão nas ruas, Claudinei também carrega a responsabilidade de transmitir valores à família. Pai de três filhas e avô, ele vê no trabalho uma forma de dar exemplo.

“Hoje eu sou feliz. Deus me deu uma nova chance, me tirou das drogas e me deu esse propósito de novo”, diz.

Para ele, continuar o que o pai começou é mais do que uma tradição: é uma forma de manter viva uma história de fé que marcou Maringá.

Ao final, Claudinei deixa uma mensagem que resume sua caminhada:

“‘Buscai o Senhor enquanto se pode achar’. A gente não sabe o dia de amanhã. Às vezes, um simples versículo pode mudar tudo na vida de alguém.”